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22 Jul 2019

| diretora: Edite Estrela

EDIÇÃO DIGITAL DIÁRIA DO ÓRGÃO OFICIAL INFORMATIVO DO PARTIDO SOCIALISTA

ENTREVISTA
António Costa contra pensamento único na Europa
AUTOR

Maria Elisa e Vicente J. Silva

DATA

26.02.2015

FOTOGRAFIA

Clara de Azevedo

António Costa contra pensamento único na Europa

As questões europeias são o tema central da primeira parte de uma entrevista de António Costa aos jornalistas Maria Elisa e Vicente Jorge Silva, onde o líder do PS identifica algumas mudanças no quadro europeu todas vindas da família socialista. António Costa qualifica de “erro trágico” o facto de Portugal e outros países entrarem num “concurso para ver quem é menos grego” e explica que a situação política na Grécia não se replica no nosso país porque o PS tem conseguido “corporizar e consolidar o voto de alternativa”, lembrando que foi o superbloco naquele país que fez crescer o Syrisa e que, por outro lado, ninguém quer uma Europa alemã.

 

Na Europa assistimos à vitória do Syriza, temos o Podemos a crescer em Espanha e o movimento 5 Estrelas em Itália. Como explica que este fenómeno não seja também replicado em Portugal?

Existem vários fatores e todos eles distintos. Há um problema geral de esvaziamento de alternativas entre os partidos políticos tradicionais. A melhor explicação do que está a acontecer neste particular é o que se passa na Grécia. Ao contrário do que acontece em Portugal, houve uma grande coligação, um superbloco central, que canalizou obviamente as alternativas à direita para a Aurora Dourada, e à esquerda para o Syriza. Cenário que, aliás, tem estado a repetir-se em outros países da Europa. A situação do crescimento de movimentos inorgânicos como em França com a Marine Le Pen é dramática.

 

Mas em Espanha temos alternativas, como o PP e o PSOE como aliás também temos em Portugal. Como é que lá nasce um movimento com esta amplitude como o Podemos e nós aqui é como se fossemos mais acomodados, mais tristes e mais entregues ao nosso fado?

Para mim torna-se mais fácil explicar o que se passa em Portugal. O PS tem conseguido corporizar e consolidar esse voto de alternativa. Porventura estaremos a viver uma situação em contraciclo com outros movimentos alternativos que existem. Se estivéssemos em 1999, quando o Bloco de Esquerda emergiu com grande força, a situação hoje certamente seria diferente.

 

Mas em Espanha o PSOE, segundo as sondagens, não está a conseguir os mesmos objetivos que o PS em Portugal.

O calendário político em Espanha vai ainda ser marcado pelas eleições municipais e autonómicas. São eleições em que o PSOE terá boas condições para se conseguir afirmar.

Mas há um problema político central na Europa que é este sistema político europeu que tem vindo a esgotar as oportunidades de alternativa. E aquilo que as pessoas sentem é a necessidade de alternativa.

Este debate a propósito da Grécia pode ser um grande teste à capacidade da União Europeia para que, no seu seio, seja possível afirmar uma alternativa. Mas não podemos ter uma moeda única que implique uma política única. Isso seria coartar a possibilidade da existência de políticas alternativas democráticas no quadro europeu.

 

António Costa

 

Não acha que existe uma degradação e até uma desintegração, nomeadamente dos partidos socialistas e sociais-democratas europeus?

Hoje temos governos de coligação na maioria dos países europeus. No Parlamento Europeu, nenhum grupo tem maioria. Na Comissão Europeia, temos comissários indicados por governos de esquerda e de direita que formam eles próprios uma coligação. E temos regras comuns aplicadas ao conjunto da Europa. Este é um quadro institucional que obviamente dificulta a construção de alternativas.

Apesar de tudo, desde as eleições europeias, é possível identificar alguns passos de mudança e todos vindos da família socialista. Hoje, damos uma nova atenção à importância estratégica do investimento, que não existia no mandato anterior, e que foi, aliás, uma das condições para a viabilização da Comissão Juncker.

O objetivo de termos uma leitura flexível e inteligente do Tratado Orçamental foi também um contributo da família socialista, assim como o enorme contributo que demos para que o Banco Central Europeu tivesse uma nova postura relativamente à política monetária.

Portanto, eu não seria tão assertivo quanto ao facto que evocou de que não há espaço para a alternativa política em relação aos partidos socialistas. Porque eu acho que há.

Mas esse espaço terá que se afirmar numa luta difícil, num contexto em que os socialistas não são maioritários no Parlamento Europeu, nem nos governos ou nos parlamentos nacionais e onde, portanto, é necessário encontrar um novo equilíbrio de forças. Algo que só será alcançado com a mudança de governos a nível nacional.

 

Desde a emergência do chamado neoliberalismo, com Margaret Thatcher e Ronald Reagan, que os partidos socialistas têm vindo a aceitar esse pensamento único, mostrando dificuldade em apresentar as suas próprias alternativas. Concorda?

Se hoje formos reler a proposta da Agenda de Lisboa, aprovada na presidência portuguesa em 2000, como matriz da criação de uma economia avançada assente no conhecimento, competitividade e inclusão, temos lá tudo o que devia ser o programa da social-democracia e do socialismo democrático do século XXI.

Infelizmente, a Agenda de Lisboa esgotou o ciclo político em que os governos socialistas eram maioritários na Europa, dando lugar a esta vaga em que a direita é dominante.

Sem dúvida que a leitura feita pela primeira Comissão Barroso sobre a Agenda de Lisboa inverteu e criou uma rutura com o processo que estava a ser lançado, tendo a situação sido conduzida para o grande desequilíbrio em que hoje vivem os países europeus.

Desequilíbrio que se traduz no facto de termos todas as desvantagens da globalização sem termos nenhuma das vantagens da integração.

A verdadeira raiz da crise do euro assenta aliás nisto. Porque é preciso questionar qual é, de facto, a principal causa da crise do euro.

Na minha opinião é a seguinte: o aumento da exposição à competitividade, a que todos fomos sujeitos, não foi acompanhado, ao contrário do que tinha acontecido quando se criou o mercado interno, pelo reforço das políticas de convergência económica.

 

Perante o bloqueio e a inflexibilidade alemã, não vemos da parte de quem discorda um sobressalto para se perceber como é que vamos sair desta situação.

Estou de acordo. Falta esse sobressalto. Mas esta crise é muito mais grave do que uma crise da União Económica e Monetária. O que esta crise veio revelar é que há, no conjunto da Europa, fraturas culturais e preconceitos que são verdadeiramente dramáticos. Quando ouvimos o senhor Wolfgang Schauble, ministro das Finanças alemão, referir-se aos povos do Sul em geral e aos gregos em particular ou o que verdadeiramente no Sul se sente em relação aos alemães, nós percebemos que há muito mais divisões na Europa do que nós imaginávamos depois destas décadas de UE.

É por isso que eu acho que a crise é muito mais grave. Porque é gravíssima a falta de noção geoestratégica e política que tem sido evidenciada. Tratar o problema da Grécia como um problema de contabilidade de dívida é ignorar completamente quer as raízes da nossa civilização quer a posição geoestratégica fundamental que a Grécia tem no Mediterrâneo.

 

É quase como se o Presidente Obama percebesse melhor que os próprios europeus o perigo que a Europa corre.

Não tenhamos dúvidas. O Presidente Obama tem aliás percebido várias outras coisas muito melhor. Por exemplo, como se deve responder à crise económica e ao problema da questão grega. E isso é que é assustador.

A Europa enfrenta um desafio terrorista dentro das suas fronteiras, assim como uma pressão brutal também nas suas fronteiras externas do leste e do sul, pelo que não se percebe como se insiste em não valorizar a posição fundamental geoestratégica que a Grécia ocupa neste contexto.

Eu tenho dito e repetido que é um erro trágico que Portugal e outros países insistam em fazer uma espécie de concurso para ver quem é menos grego. O essencial é percebermos que este não é um problema grego, mas de toda a União Europeia. É por isso que esta questão não pode ser resolvida de uma forma bilateral mas de forma multilateral.

 

Pensa que a sua análise é compreendida pelas opiniões públicas, nomeadamente nos países onde foi estabelecida a austeridade?

O verdadeiro teste às lideranças políticas surge quando são capazes de enfrentar o próprio instinto da opinião pública e racionalizar a resposta certa. Tenho a certeza que os portugueses entendem bem o que se passa na Grécia. Porque o erro e a tragédia que tem sido a política relativa à austeridade é algo que a opinião pública portuguesa há muito que entendeu.

 

António Costa

 

Houve uma falha na construção da moeda única, cujas consequências estamos ainda a sofrer?

Sim, penso que houve. É muito curioso ver que todos os estudos anteriores à criação do euro diziam que, para que uma moeda fosse comum, seria necessário termos um orçamento comunitário que tivesse entre os quatro e os sete por cento do PIB da UE. Nos Estados Unidos, é de cerca de 15% do produto federal. Na UE é apenas de 1%.

 

AGRADECIMENTO

Agradecemos à Maria Elisa e ao Vicente Jorge Silva terem aceitado o convite para conduzirem a entrevista e o terem encarado como um desafio inesperado e interessante a juntar a tantos outros das suas longas e bem-sucedidas carreiras de jornalistas. Um agradecimento é também devido à fotógrafa Clara Azevedo.

AUTOR

Maria Elisa e Vicente J. Silva

DATA

26.02.2015

Capa Edição Papel
 
EDIÇÃO Nº1413
Maio 2019