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14 Jun 2019

| diretora: Edite Estrela

EDIÇÃO DIGITAL DIÁRIA DO ÓRGÃO OFICIAL INFORMATIVO DO PARTIDO SOCIALISTA

Edite Estrela

Opinião

AUTOR

Rui Calisto

DATA

05.02.2018

TÓPICOS

1871-1872: O Grupo do Cenáculo e a Associação Fraternidade Operária

No Portugal de 1871, vinte e um anos depois de “O Eco dos Operários: Revista Social, Artística e Literária”, e ainda sob a luz de Proudhon (1809-1865), Antero de Quental (1842-1891) insufla uma série de pensadores da época - o Grupo do Cenáculo, constituído por quase as mesmas pessoas que representaram a Geração de 70, entre eles: Eça de Queirós (1845-1900), Adolfo Coelho (1847-1919), Jaime Batalha Reis (1847-1935), Oliveira Martins (1845-1894), Teófilo Braga (1843-1924), Manuel Arriaga (1840-1917), Augusto Soromenho (1833-1878), Germano Vieira Meireles (1842-1877), Guilherme de Azevedo (1839-1882), Salomão Saragga (1842-1900) e Augusto Fuschini (1843-1911) - a realizarem um conjunto de preleções no Casino Lisbonense (Conferências Democráticas do Casino Lisbonense), situado no Largo da Abegoaria.

 

O intuito de Antero de Quental era o de fazer com que as pessoas discorressem sobre a importância da mudança, que o nosso planeta vinha sofrendo, em relação às questões políticas e sociais, e, de como poderiam, através de uma conspeção universal, ajudar Portugal a aproximar-se de uma modernidade que possuísse como mola propulsora a metamorfose moral, política e social do seu povo. O cerne dos ideais, do Grupo do Cenáculo, colocaria em debate ingentes temas da Filosofia e da Ciência Moderna, permitindo o estudo aprofundado dos requisitos de modificação política, económica e religiosa da sociedade portuguesa.

Naturalmente, as Conferências do Casino não chegaram a bom termo. Os seus organizadores foram acusados de desenvolver e defender doutrinas e proposições - que hostilizavam a religião e as estruturas do Estado - baseadas em ideais republicanos, democráticos e socialistas. Chegaram a ser apresentadas cinco conferências, outras cinco foram proibidas, entre elas, “O Socialismo”, de autoria de Jaime Batalha Reis, “A República”, de Antero de Quental e “A dedução positiva da ideia democrática” (um estudo sobre a Filosofia Positivista e a Democracia), de Augusto Fuschini. 

De entre todos os protestos contra o encerramento das Conferências do Casino, encontramos a carta aberta de Antero de Quental, intitulada “Eu sou Socialista”, na qual levantava uma acirrada obtestação contra o conservadorismo e a hipocrisia do poder político da época.

Creio que esse opulento acontecimento da cultura portuguesa simbolizou para o país a confirmação de uma evolução de pensamento, sem nunca distanciar-se do ideal, difundido por Proudhon, de busca do progresso social.

A partir de 1871, o Socialismo em Portugal passou a ter mais força (não se perdendo de vista, no entanto, os primeiros passos dados por António Pedro Lopes de Mendonça (1826-1865), Francisco Maria de Sousa Brandão (1818-1892) e Francisco Maria Vieira da Silva Júnior (1825-1920)), centrando-se num desmedido avanço cultural. 

Nas “Farpas”, Eça de Queirós simplifica-nos essa evolução em apenas uma frase: “Era a primeira vez que a Revolução, sob a sua forma científica, tinha em Portugal a sua tribuna.”.

O desenvolvimento cultural de um povo tem início quando existe um genuíno equilíbrio entre os direitos e os deveres de cada um. Essa estabilidade encontra-se também na origem de muitos feitos e realizações, que levam ao ser humano uma melhor qualidade de vida. Foi assim a 19 de janeiro de 1872, quando José Fontana (1840-1876), Brito Monteiro (?-?), Nobre França (1838-1920) e Antero de Quental efetuaram a fundação da Associação Fraternidade Operária, uma nova tribuna, um novo palanque de ideias, dos tais apregoados por Eça de Queirós.

Os mentores da Associação Fraternidade Operária foram inspirados por Mikhail Bakunin (1814-1876), seguindo os moldes da Aliança da Democracia Socialista (estrutura internacional, fundada em Genebra, em outubro de 1866), e basearam a sua atuação inicial na preparação e constituição de greves, necessárias para apoiar a castigada classe laboriosa, e nas primitivas celebrações do Dia do Trabalhador em Portugal. A atuação da novel instituição alargou-se à edição, ou não fossem os seus mentores homens de ampla cultura. Assim, em fevereiro de 1872, surge o exemplar nº 1 de “O Pensamento Social”.

Esse periódico, que possuía como cognome: “Não mais deveres sem direitos, não mais direitos sem deveres”, foi elaborado por José Fontana e Antero de Quental, publicado até 4 de outubro de 1873, e impresso da Tipografia do Futuro, em Lisboa (merecedor de uma edição fac-símile). Foram, também, colaboradores desse jornal: Jaime Batalha Reis, Eduardo Maia (1845-1897), Nobre França, José Tedeschi (1814-1904), Azedo Gneco (1849-1911), Oliveira Martins e outros.

A Associação Fraternidade Operária foi influída pelas regras ratificadas no V Congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores, realizado em Haia, entre 2 e 6 de setembro de 1872, entre elas, a que expandia os alicerces viscerais, estratégicos e ideológicos dos partidos políticos que pretendiam estabelecer-se, em cada nação, através do proletariado.

Assim sendo, ainda naquele setembro de 1872, no mesmo Congresso, é votada a formação de Partidos Socialistas nacionais, bem como a cisão do anarquismo, patenteado pela Aliança Internacional da Democracia Socialista, norteada por Mikhail Bakunin e assimilada na Internacional. A Associação Fraternidade Operária atendeu essa indicação e fez-se expressar no Congresso pelo escritor, ativista e genro de Karl Marx (1818-1883), Paul Lafargue (1842-1911).

Como a classe trabalhadora era livre para pensar e tirar conclusões acerca do seu modo de vida, a insatisfação em que vivia fez com que a Associação Fraternidade Operária tivesse um crescimento extraordinário em apenas um ano: Perto de vinte e cinco mil pessoas, em todo o país, entraram no seu quadro associativo.

Tanto a Associação Fraternidade Operária quanto “O Pensamento Social” cumpriram uma função de incomparável relevância na propagação do debate e da estrutura dos instrumentos sociais, que serviam à classe trabalhadora em Portugal, sobretudo no que dizia respeito aos mecanismos de exploração por parte do patronato. Todas as ações daquela instituição, bem como as publicações no seu veículo de informação, vinham carregadas dos ideais anarquistas e marxistas. Aliás, Karl Marx era praticamente um semideus para os mentores da Associação Fraternidade Operária.

A 4 de outubro de 1873 “O Pensamento Social” envia para as ruas o seu último número, liquidando mais de um ano de trabalho constante e profícuo. O seu encerramento deve-se ao facto do enfraquecimento, por toda a Europa, das, assim conhecidas, “associações de resistência”. Com o descalabro, a luta operária, em todo o território europeu, começa a enfraquecer, retrocedendo energicamente.

Não tardou e a própria Associação Fraternidade Operária alquebrou-se, não restando outra alternativa, para manter alguns dos seus ideais bem vivos, senão fundir-se com outras estruturas proletárias. Foi assim que surgiu a Associação dos Trabalhadores na Região Portuguesa (ATRP). Com a fundação dessa nova instituição, mantinha-se ainda o espírito focado na quimera de que a sociedade de então, a abarrotar de iniquidades, seria comutada por outra mais correta e altruísta.

AUTOR

Rui Calisto

DATA

05.02.2018

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EDIÇÃO Nº1413
Maio 2019