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19 Out 2018

| diretora: Edite Estrela

EDIÇÃO DIGITAL DIÁRIA DO ÓRGÃO OFICIAL INFORMATIVO DO PARTIDO SOCIALISTA

Edite Estrela

Opinião

AUTOR

Rui Calisto

DATA

08.01.2018

TÓPICOS

1850 – 1871: Fase embrionária de um Ideal Socialista

A 28 de abril de 1850, sai a lume o primeiro número de “O Ecco dos Operários: Revista Social, Artística e Literária”, pela mão de António Pedro Lopes de Mendonça (1826-1865), Francisco Maria de Sousa Brandão (1818-1892) e Francisco Maria Vieira da Silva Júnior (1825-1868). Esse periódico defendia um socialismo quimérico e lírico, tendo como base a apologia da melhoria de vida do proletariado, sob inspiração do sociólogo, filósofo, anarquista e teórico libertário francês Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865). 

 

Através dos seus livros e dos seus inflamados discursos, onde desenvolvia a crítica social (conseguindo cativar uma grande quantidade de trabalhadores), Proudhon difundia a ideia de que as mudanças sociais deveriam ocorrer baseadas na fraternidade e na cooperação. Reconhecido o seu mérito e as suas propostas honestas, foi eleito para a Assembleia Nacional Francesa (Câmara Baixa do Parlamento da França).

A sua verve era entusiasmante (cativando no sentido de converter o anarquismo num movimento de massas) e os seus escritos tiveram enorme repercussão popular. Da sua bibliografia ativa, creio que os dois títulos mais importantes são: “Sobre o Princípio Federativo” e “Sobre a Capacidade Política das Classes Trabalhadoras”.

Lopes de Mendonça, Sousa Brandão e Silva Júnior, influídos pelas ideias de Proudhon, apoiaram fortemente o proletariado português - através das suas publicações n’ O Ecco dos Operários. Aliás, textos que mereciam uma edição mais atual, num volume fac-similar, para as novas gerações deles tomarem conhecimento.

Entre os anos de 1850 e 1871, Portugal passaria por inúmeras transformações, porém, nenhuma poderia ser considerada uma vitória para o operariado. O país vivia em grande convulsão política. 

Enquanto isso, nesse 1871 deu-se a primeira investida histórica de prolificação e fixação de um governo de índole socialista, com o exórdio da agitação operária em Paris, entre 18 de março e 28 de maio desse ano. A governação republicana foi afastada, os Jacobinos e Socialistas uniram-se, formando novo governo, designado, Comuna de Paris. Como essa maioria dos componentes da Comuna de Paris fez parte da Primeira Internacional dos Trabalhadores, os seus grandes objetivos giravam em torno da necessidade de melhoria de condições de vida e de trabalho, do operariado. Este sofria com a soberania política e económica da burguesia parisiense e com as deploráveis condições de trabalho que possuíam. Outros três itens foram importantes para a revolta popular: A derrota francesa na Guerra Franco-Prussiana, a rendição dos franceses para a Prússia e o absurdo esforço do governo francês em atirar para a classe trabalhadora todas as dívidas de guerra, anunciadas a pagamento através de inacreditáveis aumentos de impostos.

Quando a Comuna de Paris tomou o poder, o seu Conselho possuía como finalidade principal a melhoria das condições de vida de toda a classe operária, através de um acirrado controle de preços de todos os géneros alimentícios; da criação e execução de um decreto que ampliasse os prazos para pagamento das rendas de casa; da materialização de uma compensação mínima no ordenado dos trabalhadores; da criação e cumprimento de um decreto que tratasse da benfeitoria das condições de habitação popular; da instituição de limites de auxílio contra o desemprego; da criação jurídica do Estado Laico, separando o Estado da Igreja; da autogestão (pelos operários) de todas as fábricas da cidade; da autogestão (pelos operários) da administração do Governo Municipal de Paris; e do estabelecimento do ensino gratuito para toda a população.

Porém, pouco mais de dois meses depois, os mandatários do governo republicano burgalês conseguiram reagir, arremetendo com muita crueldade sobre os líderes e apoiantes da Comuna, prendendo e executando a maioria dos seus representantes.

A Semana Sangrenta (22 a 28 de maio de 1871) ditou o fim da Comuna de Paris. O predomínio bélico dos exércitos regulares, além das descomunais dificuldades de organização da defesa, levaram trinta e cinco mil “comunardos” à morte, quinze mil foram presos e milhares deportados.

Apesar disso, a Comuna de Paris esteve na reminiscência dos movimentos operários de vários países, sendo a sua prática recordada nos mais distintos métodos revoltosos subsequentes, entre eles: A Revolução Russa de 1917, a Revolução Alemã de 1918-1919, a Guerra Civil Espanhola de 1936-1939, o Maio de 1968 (na França) e a Revolução dos Cravos em 1974 (em Portugal).

O que subsistiu da Comuna de Paris? O avanço grandioso na esfera da legislação social! Comprovando que aquele era um governo legitimamente democrático e inquietado, sem ressalvas, com o bem-estar de cada trabalhador.

Paris foi livre, segundo Gustave Courbet (1819-1877), por aquele curto espaço de meses. E, essa liberdade levou a outras nações a possibilidade de compreender que todos possuem o direito de viver em igualdade democrática, alçando todas as pessoas a um alto grau de dignidade social. 

 

AUTOR

Rui Calisto

DATA

08.01.2018

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Capa Edição Papel
 
EDIÇÃO Nº1411
Maio 2018