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15 Nov 2018

| diretora: Edite Estrela

EDIÇÃO DIGITAL DIÁRIA DO ÓRGÃO OFICIAL INFORMATIVO DO PARTIDO SOCIALISTA

Edite Estrela

Opinião

AUTOR

Leonel Moura

DATA

11.12.2017

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Pensar adiante | Moeda

O chamado papel-moeda vai caindo em desuso. Sendo o dinheiro, todo ele, uma abstração, vamos assistindo a uma radicalização ou aprofundamento dessa mesma abstração. O grosso dos pagamentos é agora realizado com cartões de débito ou crédito, via Internet ou, recentemente, com o telemóvel. São simples números que passam de um lado para o outro. O dinheiro tornou-se código.

 

Não admira por isso que alguém em 2009 se tenha lembrado de criar uma moeda gerada no grande universo virtual que é a Internet. Chamou-lhe Bitcoin.

Esse alguém é não só desconhecido, pois o nome Satoshi Nakamoto que aparece como autor é fictício, como a partir do momento em que lançou a ideia perdeu-lhe totalmente o controlo. E essa é a primeira coisa a reter sobre a natureza da Bitcoin. À imagem da própria Internet, esta moeda virtual não pertence ou é controlada por ninguém, não existe nenhum organismo que centralize a sua emissão ou as transações. O processo é complexo mas, no essencial, assenta nas relações que se estabelecem entre os próprios utilizadores. Não há por isso nenhuma mão externa. Quem usa Bitcoin pode fazer compras ou vender a quem aceite esta moeda. Pode ainda cambiar por outra corrente, euros ou dólares, por exemplo, igualmente a quem o aceite. É por isso um sistema auto-organizado, paralelo ao circuito oficial dos bancos centrais, governos e demais entidades que gerem o sistema financeiro local e global. Daí também a desconfiança inicial dos poderes estabelecidos e algumas tentativas falhadas de promover a sua proibição. Não se pode proibir, em todo o lado e a todo o tempo, os acordos pontuais entre duas pessoas. A menos que um dia os governos fechem a Internet a Bitcoin veio para ficar e vai continuar a aumentar a sua importância e disseminação.

O processo de “emissão” de novos Bitcoin chama-se mineração por analogia com a procura de pepitas de ouro ou diamantes. Mas trata-se na verdade de um mecanismo de recompensa pela manutenção do próprio sistema. Como ninguém controla o universo das Bitcoin, não existindo um supervisor centralizado, “alguém” tem de manter a sua coerência e fiabilidade, desde logo impedindo falsificações. Quem o faz são os próprios utilizadores que colocam a capacidade de processamento dos seus computadores a garantir o perfeito funcionamento do sistema. Esse “trabalho” é compensado com novos Bitcoin. A cada x operações o mineiro ganha uma Bitcoin.

Recentemente surgiu uma polémica sobre o elevado consumo de energia provocado pela mineração de Bitcoin. É uma realidade. É cada vez mais difícil minerar novas moedas, pois o número de utilizadores e de transações é cada vez maios, e portanto a energia necessária não para de aumentar. Por outro lado, existem cada vez mais mineiros, mais computadores portanto, a trabalhar exclusivamente com este objetivo. Calcula-se que neste momento a mineração global de Bitcoin consome aproximadamente tanta energia como Portugal inteiro. A menos que se consiga baixar o consumo dos computadores este é um problema sério que esta moeda enfrenta.

De qualquer modo a Bitcoin é um bom exemplo das mudanças que se vão operando e do futuro previsível. Teremos cada vez mais sistemas auto-organizados, não dependentes de nenhuma autoridade fixa. Ao ponto de ser possível antecipar que um dia a própria governação de um país, ou pelo menos parte dela, possa ser feita deste modo.

AUTOR

Leonel Moura

DATA

11.12.2017

TÓPICOS
Capa Edição Papel
 
EDIÇÃO Nº1411
Maio 2018