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12 Dez 2018

| diretora: Edite Estrela

EDIÇÃO DIGITAL DIÁRIA DO ÓRGÃO OFICIAL INFORMATIVO DO PARTIDO SOCIALISTA

Edite Estrela

Opinião

AUTOR

Paulo Pisco

DATA

13.07.2017

TÓPICOS

A VENEZUELA E OS PORTUGUESES

A Venezuela é um país com um extraordinário potencial, apesar das enormes desigualdades e insegurança que sempre existiram. A vasta e dinâmica comunidade portuguesa já de várias gerações sente a Venezuela como sendo também o seu país, e sempre foi e é altamente respeitada e considerada. 

 

Mas a Venezuela é hoje um país desestruturado e arruinado, em virtude da degradação da situação política e das condições de vida do povo venezuelano, que atingiu um ponto de sofrimento e penúria dramáticos.

Não há apenas falta de tudo, de bens alimentares a cuidados de saúde; sobretudo, falta cada vez mais a esperança numa atitude razoável e dialogante por parte do Presidente do Governo que possa inverter a queda acelerada para o abismo, com consequências ainda piores para o atual estado de coisas, caracterizado pelo caos, tensão permanente e repressão.

A ordem constitucional e os direitos e liberdades estão já totalmente espezinhados com a anulação de atos cidadãos, detenções políticas, com o adiamento sine die de eleições e agora muito recentemente até com uma inqualificável invasão do Parlamento e a agressão a deputados legitimamente eleitos. O Parlamento foi destituído dos seus poderes para dar lugar a um parlamento sem oposição. A democracia morreu.

Já se percebeu que, depois de tantos mortos e feridos nos confrontos, depois de tantas prisões e de tantas dificuldades para as famílias sobreviverem, os venezuelanos não vão deixar de se manifestar na rua, como repetidamente tem sido mostrado nas reportagens, até que a normalidade democrática seja resposta. Desde abril já morreram perto de 100 pessoas e milhares foram feridas. O balanço é trágico: a criminalidade e a insegurança aumentaram brutalmente, a inflação está completamente descontrolada e a energia está sempre a falhar.

E no meio de todo o sofrimento do povo venezuelano está também o da vasta comunidade portuguesa, um dos pilares fundamentais do país, muito particularmente em termos económicos, já que são proprietários de uma boa percentagem dos comércios e da distribuição alimentar, que agora está completamente prejudicada, em virtude da enorme escassez de bens de consumo. E é também por haver situações graves de fome e penúria que os estabelecimentos dos portugueses acabam por ficar mais expostos às pilhagens e ao vandalismo, como, de resto, todo o tipo de comércios. 

Os portugueses e descendentes dos portugueses amam a Venezuela e nada lhes custa mais do que terem de abandonar o país, embora muitos já o tenham feito, particularmente para a Madeira, mas também para o continente e para alguns países de língua espanhola. Os portugueses têm, por isso, uma grande esperança num regresso rápido à normalidade económica, social e política. 

Neste contexto, merece reconhecimento o esforço do Governo Português no sentido de apoiar tanto quanto possível a nossa comunidade, numa situação tão complexa como a que se vive. O pessoal diplomático e consular foi mobilizado e existe um contacto permanente com os representantes da comunidade, designadamente do movimento associativo e conselheiros das comunidades, mas também mantém um canal aberto de diálogo com o Governo venezuelano, que tem ajudado a minorar algumas situações, particularmente relacionadas com os prejuízos causados aos comércios de portugueses.

Temos de nos preocupar com a Venezuela, porque se trata de um país que tem muito de Portugal, porque é também um país construído por portugueses de várias gerações. Há até um Estado que se chama “Portuguesa”, batizado com este nome em 1909.

Devem ser feitos, por isso, todos os esforços para que o país regresse à normalidade, para que as populações possam ser acudidas nas suas necessidades, particularmente em bens alimentares e medicamentos, e para que a ordem política e institucional seja reposta. Acima de tudo, há uma urgência humanitária que deve estar no topo das prioridades da comunidade internacional.

 

AUTOR

Paulo Pisco

DATA

13.07.2017

TÓPICOS
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EDIÇÃO Nº1411
Maio 2018