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15 Nov 2019

| diretora: Edite Estrela

EDIÇÃO DIGITAL DIÁRIA DO ÓRGÃO OFICIAL INFORMATIVO DO PARTIDO SOCIALISTA

Edite Estrela

Opinião

AUTOR

Edite Estrela

DATA

02.05.2017

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Nuno Brederode Santos

O Nuno deixou-nos prematuramente, aos 72 anos. Nasceu a 14 de dezembro de 1944, no pós-guerra, como ele gostava de sublinhar, tomando como marco histórico a batalha das Ardenas. No Dia do Trabalhador, acompanhámo-lo à sua última morada, ao jazigo de família no Cemitério dos Prazeres, em Campo de Ourique, o “seu” bairro.

 

Na hora da despedida, num momento singelo e belo, com canto e poesia, Luís Filipe Castro Mendes evocou a personalidade do amigo de longa data e muitas cumplicidades. Já na véspera, no Museu da Cidade, a sua multifacetada Lisboa, outros amigos haviam relembrado os traços de personalidade que distinguiam Nuno Brederode Santos do comum dos mortais. O presidente da República destacou “a inteligência fulgurante” e o sentido de humor do cronista brilhante. Maria Emília partilhou com os presentes as últimas palavras do irmão, uma espécie de passagem de testemunho, “tu és eu”. E a atriz Maria do Céu Guerra, sua companheira das duas últimas décadas, dizendo que ele raramente falava de si próprio, leu um excerto do prefácio de “Rumor Civil”, escrito na primeira pessoa: “Eu não sou um analista isento, pela boa e dupla razão de não ser nem analista nem isento”. 

Ele que fez das mais lúcidas reflexões sobre a realidade; que se notabilizou pela argúcia das suas análises; que escreveu das mais geniais crónicas publicadas no Expresso e no Diário de Notícias; ele que tinha “um talento único para encontrar as palavras certas” e “o dom de não deixar mais nada por dizer”, segundo Jorge Sampaio de quem foi conselheiro e “um grande e velho amigo, muito próximo, companheiro de inúmeras lutas”; ele, o genial Nuno Brederode Santos, só não foi o que não quis ser. Não quis ser ministro, nem deputado. Não quis expor-se às luzes da ribalta nem ao aplauso das multidões. Quis gozar a vida e ser livre. “Sei ser isento, mas não quero. Quero estar com os meus e contra os meus adversários. Cada um escolhe o seu campo”. E o seu campo foi sempre o da coerência com os valores e princípios que lhe nortearam escolhas e atos, da lealdade aos amigos, da nobreza de caráter, da qualidade. Aderiu ao PS em 1977, com outros membros do grupo de reflexão política “Intervenção Socialista”, formado em 1975. Foi confidente de Jorge Sampaio e de Ernesto Melo Antunes. Não por acaso, foi em sua casa na Estrada das Laranjeiras que, nas vésperas do 25 de novembro, se realizou o encontro secreto entre Álvaro Cunhal e Melo Antunes. 

Nuno tinha uma enorme admiração pelo pai, Nuno Rodrigues dos Santos, opositor à ditadura, social-democrata convicto, presidente do Congresso e da Comissão Política do PPD/PSD, de que chegou a ser presidente interino. Embora pertencendo a partidos políticos diferentes, havia entre eles uma grande sintonia no essencial. Numa entrevista a Anabela Mota Ribeiro, em 2013, Nuno definiu o pai como “democrata-social republicano assanhado, na tribuna e no jornal deixa o seu verbo inflamar”.

Conheci pessoalmente o Nuno há cerca de quarenta anos. Li sempre com prazer intelectual e deleite político as suas crónicas. Ouvia atentamente as suas reflexões e análises e tentava interpretar os seus silêncios. E como ele era ímpar a escrever e falar! Sempre o admirei. Mesmo no PS e na tertúlia da “mesa dois” do Procópio, nunca me desiludiu. Ele era o melhor de nós todos. E já não vou poder dizer-lhe pessoalmente, uma vez mais, gosto muito de ti, Nuno.

 

AUTOR

Edite Estrela

DATA

02.05.2017

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EDIÇÃO Nº1414
Agosto 2019