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13 Dez 2019

| diretora: Edite Estrela

EDIÇÃO DIGITAL DIÁRIA DO ÓRGÃO OFICIAL INFORMATIVO DO PARTIDO SOCIALISTA

Edite Estrela

Opinião

AUTOR

Carla de Sousa Miranda

DATA

07.02.2017

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Por um Clima de Igualdade

O Acordo de Paris tem um momento fulcral registado para a história em 2015. O momento em que Laurent Fabius anuncia os termos do acordo de combate às alterações climáticas conseguido a nível mundial. A sala irrompe em aplausos e a mesa levanta-se em celebração. Mas ele não teria sido assinado se não fosse o trabalho incansável de bastidores, realizado nos dois anos anteriores, por 3 mulheres.

 

Foi a elas que coube motivar, enquadrar, organizar a conferência que reuniu, numa mesma sala, representantes de 190 países e mais de 80 estruturas que representam mais de 60% das emissões mundiais de carbono. Mas é difícil encontrar no mundo imagético de hoje uma fotografia conjunta de Ségolène Royal, ministra do Meio Ambiente da França, Laurence Tubiana, negociadora da França para as alterações climáticas e Christiana Figueres, a responsável pelas questões climáticas nas Nações Unidas. Sem imagens icónicas das mulheres que possibilitaram este progresso, será fácil para elas ficarem perdidas nos interstícios da História. 

Podemos continuar a relegá-las para um segundo plano. Mas não é possível garantir o sucesso do Acordo de Paris sem a anuência e empenho de mais de 50% da população do planeta. O Fundo de Populações da ONU assinala as mulheres como as mais vulneráveis, com maior probabilidade de morrerem em desastres naturais, como cheias ou ondas de calor, porque elas gerem as habitações e tomam conta dos membros da família, limitando a sua capacidade de sair quando confrontada com essas crises. 

Elas são a maioria dos pobres do mundo, mais dependentes dos recursos naturais para a sua vida e sobrevivência. São mais vulneráveis porque têm menos acesso à educação o que as possibilitaria fazer uma melhor gestão dos riscos relacionados com as alterações climáticas. Mas os dados existentes também nos mostram que quando em controlo dos recursos, as mulheres usam-nos melhor do que os homens, em benefício da saúde e estabilidade económica familiar. Que têm mais facilidade em encontrar estratégias de resposta a novas informações que minimizem o risco e, portanto, são agentes mais eficazes na adaptação às mudanças climáticas. É por isso que a igualdade de género é crítica na abordagem do combate às alterações climáticas a nível local e internacional. 

Foi este enquadramento que levou Anne Hidalgo, presidente da câmara de Paris a criar a Women4climate. O objetivo é global e contínuo: galvanizar a comunidade internacional para se focar no nexo entre género e alterações climáticas. Difundir mundialmente que negar ou suspender o plano estratégico de combate às alterações climáticas é uma ameaça direta à Igualdade do Género em todo o mundo. Sublinhar a importância na identificação e apoio à próxima geração de líderes femininas, conceder-lhes poder para que sejam agentes ativos na criação de oportunidades nesta agenda crucial. Agregar mulheres nas lideranças municipais ou nacionais, nas organizações da sociedade civil, garantindo partilha de responsabilidades e participação conjunta de mais mulheres na luta a favor de territórios sustentáveis e reforçando as suas capacidades como futuras líderes, é tarefa essencial para o futuro do planeta.

A eleição de Donald Trump como Presidente dos EUA, detentor de uma voz misógina, autoritária e de ceticismo climático não contribui para que esta agenda progressista avance. Por isso, mais do que nunca é necessário garantir que as futuras gerações não vejam a sua eleição como um momento de desencorajamento. 

O relatório da Agência Europeia do ambiente assinalou que a Europa do sul e sudeste vai ser uma “região crítica, onde se registam grandes aumentos de calor extremo e diminuição de precipitação, aumentando o risco de secas mais severas, menores rendimentos de culturas, perda de biodiversidade e incêndios florestais, entre outros problemas”. Para Portugal, o combate às alterações climáticas não pode ser uma opção.

As eleições autárquicas, no final do ano, são um bom momento para colocar na agenda das cidades o combate às alterações climáticas e sublinhar a sua ligação à criação de novas e progressivas políticas para a Igualdade. Se é altura para o país colocar no seu centro a política, é também a altura para nós, mulheres, colocarmos o mundo como prioridade. 

AUTOR

Carla de Sousa Miranda

DATA

07.02.2017

TÓPICOS
Capa Edição Papel
 
EDIÇÃO Nº1414
Agosto 2019