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23 Set 2019

| diretora: Edite Estrela

EDIÇÃO DIGITAL DIÁRIA DO ÓRGÃO OFICIAL INFORMATIVO DO PARTIDO SOCIALISTA

Edite Estrela

Opinião

AUTOR

Edite Estrela

DATA

14.10.2016

TÓPICOS

A Comunidade de Língua Portuguesa

A 17 de julho de 1996, os chefes de Estado e de Governo dos sete países de Língua Portuguesa, reunidos em Lisboa, aprovaram a criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Timor-Leste aderiu em 2002. Vinte anos volvidos, é tempo de celebrar as duas décadas desta comunidade singular, nem sempre compreendida, nem sempre consensual, nem sempre direcionada em função do objetivo original e de fazer uma reflexão sobre as suas potencialidades e caminhos futuros.

 

A CPLP, “o espaço poligonal do arquipélago lusófono”, na bela metáfora de Corsino Fortes, tem condições únicas para conquistar espaço na cena internacional, se explorar o inestimável potencial do idioma comum, falado por mais de 250 milhões de cidadãos espalhados pelo mundo. Uma língua, com oitocentos anos de história, que é tanto de Eça de Queirós como de Guimarães Rosa, de Pepetela e Craveirinha, de Baltazar Lopes e Alda Espírito Santo e Xanana Gusmão, é não apenas uma língua de comunicação universal, mas também de negócios e matéria-prima de grandes poetas e prosadores. Poetas e prosadores que, nas palavras de Guimarães Rosa, renovando a língua, renovaram o mundo. Poetas e prosadores que colocaram “essoutro português – o seu português – na travessia dos matos, fizeram com que ele se descalçasse pelos atalhos da savana”, como disse e fez Mia Couto. Poetas e prosadores que prosseguem e reinventam “a viagem” de que fala Manuel Rui Monteiro. Poetas e prosadores que, como afirmou Pepetela, “seja qual for o rosto que nós apresentemos, é sempre a Língua Portuguesa: recebe, dá e não perde a identidade”. Com diferentes sotaques e escolhas lexicais, de forma mais poética ou mais prosaica, abrindo ou fechando as vogais, nós, povos da CPLP, é em português que comungamos ideias e recordações, que exprimimos sentimentos e volições, que verbalizamos o mundo e afirmamos a nossa cidadania. Está na hora de ser agora explorado todo o potencial de ser o português a quinta língua mais utilizada na internet e de criar condições para ela seja uma língua da economia, das novas tecnologias, da ciência e da inovação.

Na era da globalização, uma estratégia concertada do idioma deveria ser uma prioridade para os países da CPLP. A globalização desenvolve uma economia única e tende a promover uma língua única, o inglês. O entendimento das línguas como instrumento de poder levou vários países à adoção de políticas linguísticas. Começaram com os agrupamentos de países em blocos de poder, aglutinados por uma língua comum. Surgem, então, os conceitos de anglofonia, francofonia, lusofonia… Cada língua luta por se manter e difundir, por isso estabelece uma relação conflitual com as demais. 

Na União Europeia, o inglês é uma das cinco línguas de trabalho – com o alemão, o francês, o espanhol e o italiano, línguas nacionais dos maiores Estados-membros – e é também a língua hegemónica. Com a saída do Reino Unido da EU, é natural que o estatuto do inglês seja alterado. Essa deve ser uma das consequências do Brexit que Portugal deve aproveitar para valorizar a singularidade de uma língua de comunicação universal como é o português. 

AUTOR

Edite Estrela

DATA

14.10.2016

TÓPICOS
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EDIÇÃO Nº1414
Agosto 2019