1006

19 Jun 2019

| diretora: Edite Estrela

EDIÇÃO DIGITAL DIÁRIA DO ÓRGÃO OFICIAL INFORMATIVO DO PARTIDO SOCIALISTA

Edite Estrela

Opinião

AUTOR

Gabriela Canavilhas

DATA

13.07.2016

TÓPICOS

Job for the boy da Europa

Ao longo de anos, incluindo os 10 anos em que Durão Barroso foi presidente da Comissão Europeia, a Goldman Sachs tem tido nos seus quadros uma grande quantidade de ex-governantes de diferentes países e alguns dos mais altos responsáveis pelas principais instituições europeias:  Mário Drahgi, Romano Prodi, Mário Monti, Papademos são alguns dos seus exemplos mais conhecidos.  

 

É simultaneamente um estado supra-estados e um estado dentro-dos-estados. O seu imenso poder domina o coração das finanças de Wall Street ou da City e os seus tentáculos estendem-se à escala global. Nesta matéria, a realidade ultrapassa a ficção e dificilmente a imaginação consegue acompanhar o alcance planetário das movimentações conspícuas entre a alta finança, a geopolítica e os compadrios formados no seu seio. 

A culpabilidade da Goldman Sachs (GS) na gravíssima crise financeira que o mundo atravessa é inequívoca e é pública, confirmada nomeadamente na investigação da Securities and Exchange Commission dos EUA, que a acusou de fraude por ter criado e vendido ativos tóxicos aos seus clientes e de ter pago dividendos altíssimos a políticos que a favoreceram durante a crise do sub-prime. 

Também foi esta instituição financeira que ajudou a Grécia a enganar a UE a esconder os seus deficits para entrar na Zona Euro. Criando “swaps” cambiais com taxas de câmbio fictícias, permitiu que Atenas aumentasse a sua dívida sem reportar esses valores a Bruxelas, cobrando uma fortuna por esta engenharia financeira. Segundo o “Der Spiegel”, em 2005, a GS vendeu os “swaps” a um banco grego, protegendo-se e atirando deliberadamente o perigo de volta para uma Grécia que se afundava e que iria arrastar consigo todo um sistema financeiro, afetando vários países europeus. 

Estes dois casos, entre outros, teriam sido o suficiente para abalar a credibilidade desta instituição financeira aos olhos da Europa. Mas assim não foi. Numa União Europeia conduzida por um líder fraco, cinzento, sem resposta perante a crise que o sistema financeiro criou à Europa, sem reação aos desafios complexos que se colocaram à moeda única, sem visão de futuro (exceto do seu próprio, tendo em conta que abandonou o cargo de PM eleito para aceitar outro, pessoalmente mais favorável), Durão Barroso, o homem conveniente porque não interveniente, não impediu sequer que a GS fosse escolhida para assessorar o Fundo de Estabilização Financeira no processo de compra de dívida soberana de países (Portugal, Irlanda) ao abrigo do programa de assistência financeira da EU.  

A Europa ajoelha-se à Goldman Sachs e ela agradece.

AUTOR

Gabriela Canavilhas

DATA

13.07.2016

TÓPICOS
Capa Edição Papel
 
EDIÇÃO Nº1413
Maio 2019