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12 Dez 2019

| diretora: Edite Estrela

EDIÇÃO DIGITAL DIÁRIA DO ÓRGÃO OFICIAL INFORMATIVO DO PARTIDO SOCIALISTA

Edite Estrela

Opinião

AUTOR

Pedro Silva Pereira

DATA

11.03.2015

TÓPICOS

Um episódio revelador

Seria compreensível que as instituições que formaram a troica se tivessem sentido incomodadas pela confissão pública dos seus pecados feita de forma tão desassombrada por Jean-Claude Juncker, em jeito de assumida autocrítica. O que não é normal é que tenha sido o Governo português a sentir-se atingido, a ponto de sair de imediato em defesa da troica e de dirigir uma crítica aberta às declarações, ditas “infelizes”, do presidente da Comissão Europeia.

 

Este episódio caricato é muito revelador. No exacto momento em que o presidente da Comissão Europeia reconhece os erros e os excessos da troica, não apenas enquanto modelo desprovido de legitimidade democrática mas também como intervenção atentatória da dignidade dos países intervencionados, é o Governo PSD/CDS que acusa o toque e resolve vir a terreiro em defesa da “sua dama”. Isto mostra duas coisas fundamentais.

Em primeiro lugar, a identificação total do Governo com a política da troica (da qual só divergiu, como sabemos, pela sua obsessão de ir “mais além”, conduzindo à aplicação do dobro da austeridade que estava prevista no Memorando inicial). Todos nos lembramos, aliás, de ouvir o próprio primeiro-ministro, Passos Coelho, a explicar que o programa da troica correspondia ao programa do Governo de centro-direita e os factos posteriores, que infelizmente também todos testemunhámos, encarregaram-se de provar que o que se pretendeu, a pretexto da dívida e do défice, foi cumprir uma estratégia de empobrecimento e uma agenda ideológica frontalmente contra o Estado Social e os serviços públicos.

Em segundo lugar, este inusitado empenho do Governo PSD/CDS em defesa da sua troica mostra – e recorda, para quem pudesse estar esquecido - como a própria intervenção externa, que bem podia ter sido evitada (como evitaram a Espanha e a Itália, com o apoio do BCE), foi de facto pretendida pela direita, que a provocou ao abrir uma irresponsável crise política no auge da crise das dívidas soberanas. Agora que há finalmente quem queira reconhecer o fracasso de toda esta aventura, são os que escolheram e prosseguiram este caminho que se sentem desautorizados.

O que fica provado é que este Governo não serve para defender nem os interesses de Portugal, nem a própria dignidade do povo português. E um Governo que não serve para defender a dignidade do seu povo não serve para nada.

AUTOR

Pedro Silva Pereira

DATA

11.03.2015

TÓPICOS
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EDIÇÃO Nº1414
Agosto 2019